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Por que meus funcionários não ligam para segurança no trabalho?

Ainda eram cinco horas da manhã quando acordei para ir até a empresa que me contratou para realizar um treinamento de gestão de desempenho com seus diretores. Ao chegar, fui convidado para a atividade de integração com um funcionário do departamento de segurança no trabalho que iria me explicar os procedimentos básicos de segurança na empresa. Prática habitual nas indústrias e de grande importância. Durante a atividade, espantou-me frases do tipo: “use os equipamentos de proteção individual (EPI), não faça como o pessoal lá dentro que ignora nossos avisos”, em tom de melancolia, beirando a depressão. Naquele momento, tive certeza acerca de alguns tipos de desempenho que eram problemáticos e provavelmente mal geridos na empresa.

Eram oito horas da manhã e, após um delicioso café colonial, demos inícios as atividades do dia. Para iniciar, as palavras do presidente da indústria. Acomodei-me no fundo da sala e ouvi atentamente suas palavras. O presidente era figura conhecida no meio administrativo, gestor renomado e famoso por ser muito sensível não apenas aos indicadores financeiros, mas também ao que acontece com as pessoas que ali trabalham. Em seu discurso, além dos elogios pelas metas de produtividade atingidas no período anterior e dos novos planos e desafios futuros, destaca aos seus diretores:

– Vocês sabem que em nossa empresa, a saúde e a segurança do trabalhador vem em primeiro lugar. Depois disso queremos qualidade. E só depois disso, queremos produtividade. Mas vocês sabem o quanto é difícil nossos funcionários assimilarem essa ideia. Eu preciso que vocês se esforcem para colocar na cabeça das pessoas que primeiro vem a segurança, depois qualidade e depois produtividade. 

Observei que naquele momento todos os diretores presentes consentiram com o presidente acenando afirmativamente com suas cabeças e alguns poucos com comentários destacando o quanto seus funcionários tinham falta de consciência. Poucos minutos depois, fui chamado e apresentado ao grupo.

Após as tradicionais formalidades e agradecimentos, retomei o exame apresentado pelo presidente da empresa, acerca da “falta de consciência dos funcionários em relação à segurança e qualidade no trabalho”. Questionei aos presentes:

O que acontece quando o funcionário se comporta de maneira segura?

Depois de um longo silêncio um diretor arrisca: ele evita acidentes!

Perfeito!, respondi. Ele apenas evita algo que não era certo que iria acontecer… É isso?

Os gestores concordaram e afirmaram não ver outras consequências diretas produzidas pelo funcionário ao apresentar comportamento seguro. Continuei o exame:

– E quando o funcionário se comporta com alto grau de qualidade, o que acontece? Como ele fica sabendo ou é valorizado por isso?

A resposta que obtive foi que isso só era identificado no controle de qualidade e que o funcionário só é notificado quando apresenta taxa de erros alta. Ou seja, eventualmente e só quando comporta-se de maneira inadequada. Por fim, questionei:

– E o que acontece quando eles se comportam em alta produtividade? Como ficam sabendo ou são valorizados por isso?

Rapidamente vários dos gestores sinalizaram:

Há painel na própria máquina que apresenta a meta e a taxa de produção no momento, o supervisor da linha recebe em seu computador imediatamente a informação de cada máquina para atuar em caso de estar abaixo da meta, isso impacta sobre a remuneração variável e na participação nos lucros da empresa.

Diante da resposta, precisei questionar:

 – E vocês ainda acham que a falta de comprometimento dos funcionários com segurança é um problema de consciência? Será a consciência dos trabalhadores ou o sistema de gestão da empresa o problema central da segurança no trabalho aqui?

E, a partir desse exame inicial, começamos a avaliar o que é um sistema de gestão de desempenho em uma organização e como se relaciona com as políticas, princípios e valores da organização e, depois disso, avaliamos os princípios científicos da psicologia que explicam porque pessoas se comportam de um jeito ou de outro.

Essa história ocorreu em uma empresa específica, mas retrata a realidade em milhares de outras organizações pelo mundo. Especificamente no Brasil, seja pela responsabilidade social de seus gestores ou apenas em função da legislação, toda indústria investe em segurança no trabalho. Mas muitas vezes os investimentos centram-se apenas nos trabalhos de informar e orientar os trabalhadores (muitas vezes chamado de trabalhos de “conscientização”), aperfeiçoar equipamentos para torná-los mais seguros e sinalizar ambientes em relação aos seus riscos. Tudo isso é importante. Mas geralmente não é suficiente.

Promover uma cultura de segurança no trabalho abrange, necessariamente, incorporar o comportamento seguro como um desempenho a ser avaliado e gerido no dia a dia da empresa. Enquanto gestores atribuírem a responsabilidade por acidentes única e exclusivamente às consciências de seus funcionários, muito pouco avançaremos em relação a promoção de comportamentos seguros.

É nesse contexto que compreender os princípios que regem o comportamento humano torna-se útil aos gestores. Compreender o que mantém e fortalece comportamentos mais significativos é a chave para o desenvolvimento de sistemas de gestão que promovam desempenhos seguros, com qualidade e produtividade.

O exemplo foi útil para você? Tem interesse no tema segurança no trabalho? Precisa de ajuda para promover comportamentos seguros? Entre em contato conosco….

Um abraço,

Dr. Helder Gusso, consultor da N1 Tecnologia Comportamental

[box type=”info”] Para quem tiver interesse, recomendamos a leitura do livro:

Agnew, J.; Daniels, A. (2010). Safe by Accident? Take the luck out of safety. Performance Management Publications: Atlanta.[/box]

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